Pular para o conteúdo principal

Om Tare Tuttare Ture Soha

Quem me conhece há pouco tempo ou de forma mais superficial, não tem ideia do quanto sou espiritualizada. No sentido mais amplo da palavra. Tendo muito mais haver com reconecção interna e divina, que uma religião propriamente dita. Não que eu não tenha tido experiências maravilhosas e importantíssimas para o meu desenvolimento e reconhecimento na prática religiosa. Pelo contrário, me foram essenciais. Mas tenho algo dentro de mim que é forte em afirmar que são todas uma, que o propósito humano está acima de nomenclaturas, predefições e comportamentos específicos, a espiritualidade para mim ocorre de uma forma extremamente individual onde cada ideia se soma, desde que saibamos e desejemos coesistir em harmonia e empatia. Todos somos um.

Também sou uma pessoa extremamente ansiosa, perfeccionista e impaciente. Por isso a Yôga entrou cedo na minha vida para me socorrer, logo na adolescência. Foi como me recocnectar com algo que já existia dentro de mim. Foi natural, importante, essencial para manter a sanidade. Mas não se enganem, embora eu a tenha praticado constantemente por muitos anos, não mantive frequência disciplinar nisto. Ainda é um ritual extremamente importante para mim, mas tenho dificuldade ainda em criar hábito fiel, pois é algo que depende apenas de mim. E tudo bem, sabe. Não acho que isto seja realmente um problema, porque tudo que aprendi com ela, retorna sempre que preciso. E se a necessidade bate, lá estou eu a relembrar alguns ásanas para me equilibrar. Foi com a yôga que tive o primeiro contato com a meditação, coisa que eu achava que jamais seria capaz de fazer e, hoje, mesmo com tantos bloqueios focais que adquiri durante o isolamento, meu corpo ainda responde a posição meditativa muito melhor do que eu esperava.

Pois bem, toda esta longa introdução para explicar que nas duas religiões em que me conectei, a quaresma é considerada um período importante de recolhimento e foco. As coisas ficam um pouco loucas nesses dias - um portal se abre e sai de tudo através dele. Este instinto de me fortalecer neste momento é muito forte em mim até hoje, essa necessidade de manter ao menos uma tarefa constante para me fortalecer até a Páscoa.

No começo eu abria mão de um alimento prazeroso. É algo que prova para mim que tenho as rédeas sobre quais desejos devo realmente alimentar e não o contrário. Meu eu é mais forte que qualquer adversidade. Com o tempo e anos de prática, isto foi começando a parecer banal. Sabe quando a gente pratica algo difícil por tanto tempo que fica fácil? Pois é. Foi quando comecei a acrescentar novos hábitos quaresmais. Me colocar a disposicão de incluir algo disciplinadamente, ainda que apenas para este tempo.

Para iniciar, me permito fazer uma autoavaliacão e escolher determinadas ações que acredito estar necessitando naquele momento, coisas das quais posso inclusive estar fugindo de resolver. É o tempo de dar um basta em algumas procrastinações pessoais. Isto é quaresma atualmente para mim.

Esse ano em particular, fomos privados de tanta coisa para poder nos preservar, que novamente pensei que retirar algo não faria qualquer sentido.

Minha dificuldade atual é o foco. Sempre fui muito concentrada, de ler muito e me manter presente naquele momento e naquela ação escolhida. Com tantas preocupações que a pandemia trouxe, isso simplesmente desapareceu. Comecei cerca de cinco livros desde o ano passado e não cheguei sequer na metade de nenhum. Os livros são todos bons, acreditem. Mas o momento presente me retira de dentro de qualquer outro universo, ocupa todo o meu ser na maior parte do tempo. Tenho buscado não me cobrar e respeitar isto, buscado tarefas menores que me tragam paz. Pensando nisto, eu escolhi que devia voltar a meditar e a voltar a escrever um pouco - ainda que em breves anotações pessoais, uma vez que ambas as coisas me ajudam justamente na pausa individual e na busca de foco.

Não se enganem, não sou nenhum guru ou profissional da prática meditativa, sou reles humana e os pensamentos vem e vão até que eu realmente consiga apenas observa-los partindo. E com a falta de prática e a ansiedade no pico, me propus a começar com cinco minutos. Em menos de três dias, descobri que poderia fazer dez. Fiquei realmente realmente feliz em perceber de que a coisa não estava tão ruim quanto imaginei.

Meditar é uma autodescoberta constante, mas não vem assim na primeira tentativa, leva tempo até você perceber algo novo. Hoje foi o quinto dia da prática quaresmal - mas lembrem-se, mesmo que com espaçamento não linear e inconstante, a meditacão é minha velha amiga há vinte e três anos e sempre me surpreende. Acontece que hoje eu senti o primeiro movimento interno, a primeira semente brotar. Nunca dá para saber quando ou o que vai ser. É intuitivo e você percebe que é importante na hora. Desta vez, foi um mantra. Surgiu na minha mente no finalzinho da concentração.

Vamos retomar aqui um detalhe importante. Como uma apaixonada pela meditação, yôga e outras atividades que reconectam corpo e mente até minha alma espiritual, eu ouço muita música de todos os tipos de cultura. E alguns mantras, só conheço por causa destas músicas. Muitos deles, nunca fui buscar o que realmente significam, apenas escuto e aprecio seus sons. Não por desinteresse. Mas porque acho que cada coisa tem seu tempo para ser revelada.

Dito isto, heis que o som vem em mente e eu me permito repeti-lo: Om Tare Tuttare Ture Soha.

Assim que encerrei a meditação, eu sabia que precisava entender o mantra. Tenho tempo demais de jornada interior para saber que este tipo de intuição não chega até a gente por nada. O que recebi foi um enorme presente em forma de oração, que além de me emocionar muito, trouxe essa vontade de compartilhar com outras pessoas que talvez estejam precisando da mesma mensagem.

Om/ Aum: para quem não conhece, é o som primordial. Representa a palavra, o corpo e a mente, a conexão divina.

Tare: Libertação do sofrimento e de reinos inferiores.

Tuttare: Proteção contra medos internos e externos

Ture: Obscurecimentos irracionais, doenças físicas, apegos.

Soha: ação (de longo prazo) de proteção contra perigos internos e externos.

Conhecido como Mantra Verde, Om Tare Tuttare Ture Soha é uma oração a Tara, conhecida como a deusa da cura e da compaixão, uma representacão da energia feminina do conhecimento, da agilidade e da prática. Esta divindade pode ser representada em várias cores, de acordo com a intensão que se tem. A Tara Verde está justamente relacionada a habilidade de atingir a iluminação e de ajudar a todos que precisam a passar por momentos difíceis e/ou atingir seus objetivos.

É uma oração que pede proteção contra problemas e doenças espirituais, mentais ou físicos, para remover pensamentos negativos, medos e ansiedades. Que pede coragem para agir no enfrentamento dos problemas. Que pede cura.

Acho que não preciso ir muito mais além nessa explicação. Cada um colhe aqui o que dela precisar. Interpretem de acordo com o que te toca.

Como podem imaginar, eu chorei livremente depois de revelada a mensagem que chegou até mim, através da minha própria conecção com o divino, direto do oriente.

Nosso coração não mente, nosso(s) protetor(es) espiritual(is) não nos abandona(m). A gente é que as vezes se desconecta.

O choro é de pura gratidão. Este post, é absolutamente um Puja.

E já que parte da minha tarefa era escrever um pouquinho, eu achei que mais gente poderia se conectar com este mantra.

Que o mesmo impacto positivo possa cair sobre outras pessoas, que esta mensagem sirva como meu desejo para todos nós.

Namastê. O divino que habita em mim, saúda o divino que habita em você.

Om Tare Tuttare Ture Soha. Sigamos protegidos de todos os medos e males.

Comentários

A Galera Gostou...

Vivo. Logo...

Acho que sempre acreditei nele. Sou o tipo de pessoa que se pode chamar de passional, romântica, sensível, intensa. Mesmo antes de entender esse sentimento, eu já o sentia em mim. Não tem como duvidar de algo que já está dentro de você… Ou será que tem? Na verdade, tem como sim. Já muitas vezes duvidei de mim. Do amor, nunca. O vejo nas plantas, nos animais, nas pessoas… Eu não estou falando só de amor romântico, porque esta palavra é tão ampla, tão abrangente… E tão intensa em mim. Quem nunca viu o amor numa pintura? Numa foto? O amor está num simples toque. No silêncio entre duas pessoas. Na compreensão das diferenças. Na admiração pelo outro. Na beleza que está dentro. O amor é o que me move, desde que me lembro. Já perdi a esperança nas pessoas e até no sentido da vida, algumas vezes ao longo dos anos. Mas o amor sempre estava lá, em algum lugar. O que me faz acreditar no amor, nunca foi exatamente uma pessoa, mas o próprio sentimento em si. Acho que simplesmente...

O Antigo e o Novo

Está deserto e silencioso. A areia é fofa, morna e instável sobre seus pés descalços. Mas o caminhar é firme. A saia despontada e longa, raspa em suas canelas enquanto caminha e reluz sob a luz do sol. Passa devagar pela fileira de seus irmãos de jornada em meditação, carregando uma cunca acobreada e irregular com cerimônia e respeito. Por fim alcança o mestre. Por alguma razão, os cristais dispostos em torno da testa grisalha lhe transmitem transparência e energia. A pergunta que traz a ele é bem simples. Inclina a cabeça em respeito, Antes de proferi-la: – O que devo fazer com isto? – Leve ao local que pertence aos antigos. A resposta também é simples e direta. Outra reverência respeitosa. O entendimento é literal e, portanto, as ações a princípio são mecânicas. Dá alguns passos a frente, escolhendo o melhor local para virar o recipiente, liberando no ar as cinzas e pó que ali se encontravam paradas sem atingir ninguém ao seu redor. Segue até uma pequena prateleira, onde ...

Revoada

... Posso observar a revoada das andorinhas-de-sobre-branco na sacada, As abelhinhas jataí nas plantas que cultivei, Ouvir o canto alegre das maritaquinhas nas árvores da praça... Nada é meu. Mas essa vida frágil que resiste a cidade cinza, Me cura. Esses momentos são tudo para mim. Nada possuo. Neles me agarro. Respiro. Me arrebatam.