Sou uma pessoa encantada pela fala, pelas formas de expressar. Por como cada pessoa imprime suas próprias histórias em sua voz, em seus gestos, em seu corpo, em suas vestes, em suas ações, nas músicas que ouve, nos assuntos que a interessam, nas imagens que aprecia ou produz, nos sons que faz. Em como cada uma delas vai se tornando e se mostrando gradativamente um produto cada vez mais refinado, profundo, quebrado ou superficial de si mesmas. Como uma única pessoa é capaz de ser e pensar tanta coisa controversa. E que mesmo assim rotulamos.
O ser humano me fascina.
Me enoja, me entristece. Me enche de esperança e de amor. Me deixa boquiaberta e deslumbrada, positiva e negativamente.
A complexidade desta vida que pensa, sente e faz, esquece, ignora e vacila. Esse movimento que pode estar acontecendo em pura inércia, com um livro na mão... Esse potencial indistinto e infinito que há, me intriga. O mistério me seduz.
Nós das humanas - com essa tal humanidade inerente - parecemos ter sempre algo a dizer. É o que nos diferencia não? Este ego ou alterego que quer falar e ser ouvido, ver e ser visto, tocar e ser tocado, sentir e ser sentido, cheirar e exalar, pensar e fazer. Essa sensibilidade louca que precisa ser colocada para fora ou parece que vai nos engolir. Estes sentimentos, aspirações, admirações, discrepâncias, medos e revoltas… As belezas e feiúras deste mundo que cativa e desilude.
Mas veja, não sou do tipo que socializa fácil. Introspectiva, prefiro calar a dizer - porque quando digo, a sinceridade vem quase sem véu e nem sempre aquilo vai soar agradável ao outro - simplesmente não dá para revisar ou corrigir a fala! Mas a contemplação me permite imaginar as histórias de cada um. Gosto de notar os detalhes, as nuances... A desviada de olhar, o gesticular das mãos, a postura, aquele curto suspiro, o sorriso melancólico, a mudança de tom da voz, a pausa no discurso.
Cada um de nós é e pode ser tanta coisa num único dia! Ah, se lembrássemos dessa incrível capacidade mais vezes!
Esta trama de doçura e arrogância impressa num ajustar de coluna, que se mascara para se proteger muitas vezes de si mesmo, se descobre constantemente ainda que a contragosto.
Que criatura!
Asquerosa, egoísta, destruidora e sem escrūpulos.
Amável, altruísta, justa e cuidadosa!
Acima de tudo, ambígua e surpreendente - umas mais do que as outras…
Eterna incógnita, um entremeado de ideias em movimento.
Mostra e esconde tanto de si. Sempre a se reinventar.
São tantas gradações, tantas cores, tantos tons… Tantos aromas e sons!
Mas não estou a me enganar. Ainda que eu ME JULGUE detalhista, perspicaz, observadora, investigativa, sensível e que sempre está em busca de oferecer empatia… Este é o MEU julgamento. Afinal, quantas vezes algumas pequenas atitudes ou sinais, me são suficientes para que eu determine o quão superficial ou profunda será minha relação com esta ou aquela pessoa? Quantas vezes não imprimo expectativas em alguém, esquecendo que cada um tem sua própria resposta e verdade para uma mesma situação?
Jamais serei capaz de capturar toda a verdade de alguém. Muito menos de mim, ou seria o fim dessa jornada carregada de tantas variáveis.
Resumidamente, não existe uma narrativa neutra. Toda voz tem seu parecer, toda criatura tem sua personalidade, toda vida tem suas experiências. Toda crença tem suas verdades, toda cultura tem seu valor, toda a ação veio de uma decisão, todo sonho realizado causou uma ruptura dolorosa.
Bem, aqui está meu olhar sobre o outro. Um pedaço desse deslumbre que a humanidade me causa. Talvez por ter sido sempre muito xereta e sinestésica, por querer conhecer de tudo um pouco - mesmo não sendo especialista em quase nada. Vou lá e provo, pra saber que gosto tem, que cor é esta, que cheiro é esse, qual é a textura... O quão difícil é, o quanto o desafio vai me motivar ou como aquilo vai me emocionar. Tocar um instrumentinho aqui, desenhar uma ideia ali, pintar com esta ou aquela técnica. Poetizar um instante, imaginar uma memória, descrever um devaneio. Ouvir e aprender palavras desconhecidas deste e de outros estados, países ou culturas. Ouvir o vento, sentir o cheiro da chuva, observar o silêncio.
Poderia então me descrever como uma pessoa sonhadora, dramática e passional - apesar de muito realista e analítica. Tenho compulsão em romancear qualquer narrativa que me proponho, pois valorizo a beleza em tudo que me cerca - mesmo aquela que outros dirão que é feiúra. Meus sentimentos são sempre muito intensos e portanto me acho sempre destituída de ferramental suficiente para conseguir expressar tamanha emoção. A vida, para mim, é sempre uma poesia visual, cantada, escrita, perfumada, tocada, sentida ou falada.
Sou uma contadora de histórias.
Desde pequena uma ratinha de biblioteca, sempre amei literatura, tirava notas máximas em produções de texto e redação, conseguia uns trocados fazendo trabalhos de arte dos amigos. Adorava a aula de redação, principalmente quando era para criar histórias ou poesias!
Passei a adolescência inteira criando personagens e produzindo fanfics - era uma forma de me expressar com universos que as pessoas já gostavam e onde podia me esconder nos nicknames e apelidos dos fóruns. Quem escreve tem esse medo louco da repercussão, além dessa gana por feedbacks.
Desde 1997-98, participo de um grupo de amigas que trocam ideias e textos - de pelo menos três grandes projetos pessoais e uma verdadeira epopéia coletiva. À princípio visto como um hobby. Até que enfim assumimos que essa é nossa voz, nosso desabafo, nosso ar. Imprescindível para nos manter sãs, importante demais para abandonar. Decidimos levar nossos livros a sério. Mas no meio da rotina da vida adulta de trabalhar e sobreviver, estes projetos - ainda que possuam påginas e mais páginas de anotação - são demorados e complexos de finalizar. Principalmente quando ser escritor não é seu ganha pão e a insegurança de ser um amador cria outras dificuldades sobre por onde começar e como permanecer ativo.
Neste processo decisivo que já tem pelo seis meses, muitas águas já rolaram e já amadureceram muitas ideias. Mas finalmente me dei conta de que posso soltar essa voz antes ainda dos livros, sem nenhuma grande pretensão além do fato de expressar minhas ideias para mais pessoas.
Sou uma contadora de histórias! Chega de me esconder!
Esta foi só a primeira trama sobre essa tal voz que carrego. E sobre esse olhar apaixonado que tenho pela vida e que dá vazão a este desejo louco de dividir com os outros o que minha insana imaginação produz.
Meu olhar sobre o outro. Meu olhar sobre quem podemos ser. Meu olhar sobre tantos eus.
Sobre minha própria essência.

Comentários
Postar um comentário