O farfalhar de suas asas só é possível de escutar se acaso houvesse mergulhares de silêncio no jardim ou campo em que a avistaste. Nas ruas da cidade, o ruído dos carros e das pessoas jamais permitiria que tal sutileza chegasse aos seus ouvidos.
Aquele jardim ficava de frente a uma grande avenida. Por esta razão, o pequeno inseto azul e branco a surpreende quando pousa em seu nariz, enquanto imaginava milhares de mundos secretos deitada sobre a grama.
A garotinha abre os olhos e permanece onde está, estática. Os olhos estão estatelados quando sente o ser vivo lhe fazer cócegas sobre a pele. As pupilas negras doem levemente por conta da posição vesga a qual foram forçadas. A respiração fica contida, tentando não incomodar a borboleta que ali repousa.
A luz do sol lhe aquece a pele e os longos cílios infantis piscam devagar. As asas mágicas da Papilonoidea tremulam uma vez mais. Sob a rica imaginação da menina, um pó fino e brilhante se desprende das pintinhas claras e se espalha no ar. Ela força as próprias pálpebras a fechar, mas não em tempo de evitar que parte dele caia dentro de seus olhinhos redondos e expressivos.
Ela volta a piscar mais uma dezena de vezes, afim de espantar o desconforto e a secura. Sua vista falha. Apenas uma bola esbranquiçada de luz solar tardia predomina em sua visão.
A infante escuta o farfalhar de asas desta vez, junto a sua orelha direita. Uma risadinha divertida ribomba no ar, ao sentir roçar as pequenas asas, fazendo coçar seu pescoço rosado.
A garotinha de repente se ergue, correndo faceira por entre as flores que agora lhe parecem ter um colorido ainda mais vivo. A borboleta a segue, sobrevoando em zigue-zague suavemente, como a dançar no ritmo do esvoaçar dos castanhos fios da menina.
A pequena rodopia com os bracinhos abertos, em pura felicidade por estar sob o sol ao lado de uma criatura mágica como aquela. O inseto azul repousa agora em sua testa. E, de repente, a mente infantil parece clarear…
Aquele dia é único em sua vida.
Não haverá de se repetir o mesmo céu, as mesmas nuvens ou o mesmo vento.
Amanhã, talvez ela tenha um dente a menos, umas sardas a mais, seus sapatos podem ficar apertados e seu cabelo pode ter sido cortado. Seu anel favorito pode não servir, as bonecas podem parar de diverti-la e seus melhores amigos podem ter se mudado para outra cidade.
Ela ofega assustada e pára de girar. Sua companheira de asas azuis parte céu acima em direção ao sol até desaparecer de sua vista.
Jamais esqueceria daquela mensageira delicada, que acabara de lhe ensinar uma palavra até então apenas esquisita e sem sentido: efêmero.
Ela evita piscar, sentindo que talvez uma lágrima escorra por seu rosto com o peso da palavra, o coraçãozinho esmagado dentro do peito.
A borboleta está agora girar espiralada no outro lado da avenida, em busca da próxima flor.
Bailarina.
Ela quer ser bailarina quando crescer.
Para ter a leveza das borboletas.
Mas agora… Agora ela só quer brincar.
O som do seu próprio riso a surpreende e ela corre. Mais madura e mais crescida do que a segundos atrás. Acha até que seu vestido ficou repentinamente um pouquinho mais curto que antes. Apenas um pouco.
Pois jamais perderia a pureza infante em seu espírito.
Sempre grata às borboletas.

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