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Mostrando postagens de 2019

O Antigo e o Novo

Está deserto e silencioso. A areia é fofa, morna e instável sobre seus pés descalços. Mas o caminhar é firme. A saia despontada e longa, raspa em suas canelas enquanto caminha e reluz sob a luz do sol. Passa devagar pela fileira de seus irmãos de jornada em meditação, carregando uma cunca acobreada e irregular com cerimônia e respeito. Por fim alcança o mestre. Por alguma razão, os cristais dispostos em torno da testa grisalha lhe transmitem transparência e energia. A pergunta que traz a ele é bem simples. Inclina a cabeça em respeito, Antes de proferi-la: – O que devo fazer com isto? – Leve ao local que pertence aos antigos. A resposta também é simples e direta. Outra reverência respeitosa. O entendimento é literal e, portanto, as ações a princípio são mecânicas. Dá alguns passos a frente, escolhendo o melhor local para virar o recipiente, liberando no ar as cinzas e pó que ali se encontravam paradas sem atingir ninguém ao seu redor. Segue até uma pequena prateleira, onde ...

A Prisão das Máscaras

Todo ser humano invariavelmente cresce aprendendo a forjar sua própria armadura, para sobreviver a selva que o aguarda mundo a fora. Todos nós vivemos e ainda vamos viver em função das diversas máscaras que construímos para escapar da crítica e do julgamento alheios. Escapamos de algumas com o passar dos anos, mas sempre haverão outras a apertar nossos orgulhosos narizes. A prisão a que todas estas máscaras nos impõem, ainda é o maior de todos os fardos da humanidade em função do coletivo e da suposta 'ordem das coisas'. Não consigo, infelizmente, acreditar que algum dia nos livraremos deste artefato que esconde o que realmente somos - inclusive de nós mesmos, e que é a maior causa de todas as nossas aflições e desgraças pessoais. Pelo menos não enquanto estivermos amarrados a esta casca de carne que faz peso a nossa alma e espírito. A pressão de tantos disfarces e escudos, tantas couraças internas e externas... Tudo isso acaba por nos fazer acreditar que nossas falhas d...

Males da Mente

Corre daqui, corre de lá Quanto mais faz, mais a fazer há A cabeça grita, os neurônios fervem Estafa, ansiedade, stress, inabilidade Cobrança, agonia, depressão, incompatibilidade Bate o pé, aperta o peito lágrima cai, juízo se esvai Antes a pele era ferida Agora é a alma é que é partida.. Mas corre, lá vem! Não temos tempo, não temos vida Trabalha, dirige, caminha! Não temos destino, não temos sonhos E ainda te perguntam "por que andas tão tristonho?" Dinheiro é o meio, mas escraviza Principalmente a quem tem conta e não brisa! Anda! Não pare! Se apressa! Há mais a ser feito Por razão ou despeito. Não temos tempo! Não temos vida, não temos sonhos Perdemos tempo contando as horas, os minutos... À vida! Não temos tempo! Não temos tempo...

A Personificação do Idioma Francês

Bonjour, monsieur. Je t’aime, mon amour! Il a eu un coup de foudre dês leur première recontre. La nouveautè, que c’est vielle la nouveautè! Le menu est très bien prèpare. Este idioma também deixa sua marca no “r”, mas em vez daquele enrolar de língua do primo italiano, soa mais como um limpar de garganta. As sílabas tônicas normalmente são as últimas e os fonemas são bem mais fechados e repletos de nuances difíceis para um estrangeiro reproduzir, exigindo do falante aquele tal “biquinho”. É um idioma que engole praticamente metade das sílabas que escreve, famoso pela complexidade de sua escrita com mil acentos. Chèrie. Araignèe. Beaucoup. Belle-mère. Poulet. Biscuit. Petit. Chien. Noir. Pantalon. Enseignante. Tem o gosto enriquecido e levemente cítrico de um verdadeiro champagne , com delicadas bolhas de ar a te fazer cócegas na língua. Tem aquela textura amanteigada e crocante de um croissant , sequinha e úmida de um macaron . Seu aroma é perfumado e calmante como um campo lava...

A Infância e a Borboleta

O farfalhar de suas asas só é possível de escutar se acaso houvesse mergulhares de silêncio no jardim ou campo em que a avistaste. Nas ruas da cidade, o ruído dos carros e das pessoas jamais permitiria que tal sutileza chegasse aos seus ouvidos. Aquele jardim ficava de frente a uma grande avenida. Por esta razão, o pequeno inseto azul e branco a surpreende quando pousa em seu nariz, enquanto imaginava milhares de mundos secretos deitada sobre a grama.  A garotinha abre os olhos e permanece onde está, estática. Os olhos estão estatelados quando sente o ser vivo lhe fazer cócegas sobre a pele. As pupilas negras doem levemente por conta da posição vesga a qual foram forçadas. A respiração fica contida, tentando não incomodar a borboleta que ali repousa. A luz do sol lhe aquece a pele e os longos cílios infantis piscam devagar. As asas mágicas da Papilonoid...

Nuvens de Algodão Doce

Fecho os Olhos, ainda consigo me lembrar Quando era criança, sempre estava a imaginar! Olhava as estrelas, admirava a lua Crendo que se nela visse um coelho, o amor visitara a alma sua... Mas se visse Jorge e o Dragão, viveria uma aventura digna de coleção! Temia apontar as estrelas, pois faz nascer verruga Tão certo, quanto muito tempo no banho a pele enruga! Se visse um vagalume, logo queria tê-lo em mãos Indagar se ele e as estrelas já haviam sido irmãos Questionar se acaso o Cruzeiro do Sul Já tentara casá-lo com uma das Três Marias Se ao vagar o céu em seu profundo azul Descobriu as maravilhas e magias Acaso o sono me pesasse o olhinho Decerto era Morfeu e seu pozinho! Amanhecia o dia, sempre com música e alegria - Sim! Fosse passarinho, um instrumento, o vento ou um caminhão Em meus ouvidos tudo virava uma canção! O sol saiu, sem dar um piu?! Bora olhar a pintura divina do dia! Parecerá abstrata ou com uma cotia? Terá cores vivas ou cinzentas? Texturas lisas...

A Personificação do Idioma Italiano

Ma che bello! Cosa fai? Mangia che te fa bene! Dolce fare niente. Sogni d’oro! E prima che io dimentichi… Vaffancullo! Escutando e olhando como se movimentam seus falantes nativos… Como são expansivos, gestuais, alegres e furiosos numa só conta... Espontâneos e francos. Como usam praticamente todos os desdobramentos do palato, não engolem sílabas e impõem a sonoridade do “r”, do “c”, do “sc”, do “t”, do “g”... Os fonemas abertos e cheios de vida. Este idioma especialmente me encanta por sua beleza expansiva e sonoridade peculiar tão bem delimitada característica. Amore. Pisolino. Farfalla. Vicino. Gnochi. Andiamo. Tutti. Scrittrice. Piazza. Arrabiato. Zanzara... Esse idioma tem um gosto ácido e peculiar, como o molho de tomate com manjericão que minha bisavó passava a manhã inteira cozinhando. É crocante como um pão recém assado, mas também derrete lentamente na lįngua como um bocado de tiramisu. Tem aquele cheiro marcante e reconfortante de café expresso, que faz a gente fica...

Amorosidade

Um mini-pensamento para o dia de hoje. Quando o orgulho se torna soberba, o conhecimento vira “eu tenho razão” e a disciplina se transforma em destrato... O amor se desgasta. Não há união que suplante a depreciação. O ser humano quer sim ser valorizado, respeitado, considerando, ouvido. Principalmente pelos seus. Empatia é a chave para a verdadeira amorosidade. Como diz uma sábia amiga, “It’s chaos. Be kind".

Meu Olhar Sobre o Outro

Sou uma pessoa encantada pela fala, pelas formas de expressar. Por como cada pessoa imprime suas próprias histórias em sua voz, em seus gestos, em seu corpo, em suas vestes, em suas ações, nas músicas que ouve, nos assuntos que a interessam, nas imagens que aprecia ou produz, nos sons que faz. Em como cada uma delas vai se tornando e se mostrando gradativamente um produto cada vez mais refinado, profundo, quebrado ou superficial de si mesmas. Como uma única pessoa é capaz de ser e pensar tanta coisa controversa. E que mesmo assim rotulamos. O ser humano me fascina. Me enoja, me entristece. Me enche de esperança e de amor. Me deixa boquiaberta e deslumbrada, positiva e negativamente. A complexidade desta vida que pensa, sente e faz, esquece, ignora e vacila. Esse movimento que pode estar acontecendo em pura inércia, com um livro na mão... Esse potencial indistinto e infinito que há, me intriga. O mistério me seduz. Nós das humanas - com essa tal humanidade inerente - parecemos ter s...

Dos sons e dos Gestos

O som e a linguagem corporal me transmitem certas mensagens e sensações. Meu primeiro projeto do blog, Minha Voz Sobre as Vozes da Língua , é um apanhado de perfis conceituais sobre o que me dizem alguns idiomas que ouço, enquanto observo seus falantes. Personificações da língua, como se fossem vivas e, elas próprias, pequenas criaturas repletas de personalidade, sabores, texturas, aromas e cores. Por favor não pensem que pretendo generalizar, nem muito menos hostilizar nenhum país ou cultura, rotulando seus nativos como isto ou aquilo, que fazem assim ou assado. É um retrato do meu olhar apaixonado pelo som da fala humana. Tudo feito com o maior carinho de alguém nunca viajou para fora do seu país, - ainda! - mas que ama escutar e aprender palavras, expressões, culturas e idiomas de todo tipo de ser humano de qualquer parte do mundo. Serão pequenos textos com impressões sobre o que os seus fonemas, sílabas, entonações, imposições gírias e posturas de comunicação me transmitem e me f...