Pular para o conteúdo principal

A Personificação do Idioma Francês

Bonjour, monsieur. Je t’aime, mon amour!
Il a eu un coup de foudre dês leur première recontre.
La nouveautè, que c’est vielle la nouveautè!
Le menu est très bien prèpare.

Este idioma também deixa sua marca no “r”, mas em vez daquele enrolar de língua do primo italiano, soa mais como um limpar de garganta. As sílabas tônicas normalmente são as últimas e os fonemas são bem mais fechados e repletos de nuances difíceis para um estrangeiro reproduzir, exigindo do falante aquele tal “biquinho”. É um idioma que engole praticamente metade das sílabas que escreve, famoso pela complexidade de sua escrita com mil acentos.

Chèrie. Araignèe. Beaucoup. Belle-mère. Poulet. Biscuit. Petit. Chien. Noir. Pantalon. Enseignante.

Tem o gosto enriquecido e levemente cítrico de um verdadeiro champagne, com delicadas bolhas de ar a te fazer cócegas na língua. Tem aquela textura amanteigada e crocante de um croissant, sequinha e úmida de um macaron.

Seu aroma é perfumado e calmante como um campo lavanda soprado pela brisa.

Sua cor é o azul cobalto, brilhante como lápis-lazúli. Transmite aquela calmaria nostálgica, possível apenas pela combinação perfeita de harmonia e equilíbrio.

A textura lembra um mobiliário vitoriano ou rococó, pois é liso ao toque, mas repleto de riquezas, volumes e curvas detalhadas que formam desenhos espiralados dos mais diversos tipos.

É a sensação fria e inebriante de tocar ouro ou diamante lapidados, de receber um elogio importante, ou de ganhar uma bela jóia.

Tem o som chiado e lento das ondas calmas numa noite outonal. A melodia elaborada das canções de amor dos apaixonados. As notas dramáticas e intricadas do violino, que vibram profundamente no peito e na alma como dedilhar de um sólo de piano.

É o idioma da sutileza e do refinamento. Tem uma fala rebuscada, uma postura ereta e quase narcisista, elegante. Porte influente, que seduz por estratégia. É tão cortês e refinado! Podemos dizer que é um bon vivant, muito gourmet e fashionista ao mesmo tempo. Sabe determinar e expressar o que tem qualidade ou não com uma simples olhadela. Além de um romântico - friamente calculado, veja bem... - ele sabe o que diz e porque diz; não tem medo de assumir sua posição ou sentimento. Não confunda com arrogância ou superioridade, embora tenha seus momentos. Seguro de si, simplesmente se basta.

Assemelha-se com aquela pessoa que é impossível distinguir se tem vinte ou ou quarenta anos, que chama atenção por zelar pela própria aparência, não por fazer alarde. Homem ou mulher influente, que sabe se portar em qualquer ocasião com cortesia e que recebe o outro com o refinamento de um anfitrião detalhista, dando a seus convidados seus melhores pratos e bebidas, com a apresentação trabalhada e minimalista.

O francês também me remete a arte da dedicação. Pois tudo nele é minuciosamente preparado para ser uma estrela. A beleza premeditada, que mora no detalhe.

Vous me plaisez. A bientôt, merci! Bonne semaine.

Comentários

A Galera Gostou...

Vivo. Logo...

Acho que sempre acreditei nele. Sou o tipo de pessoa que se pode chamar de passional, romântica, sensível, intensa. Mesmo antes de entender esse sentimento, eu já o sentia em mim. Não tem como duvidar de algo que já está dentro de você… Ou será que tem? Na verdade, tem como sim. Já muitas vezes duvidei de mim. Do amor, nunca. O vejo nas plantas, nos animais, nas pessoas… Eu não estou falando só de amor romântico, porque esta palavra é tão ampla, tão abrangente… E tão intensa em mim. Quem nunca viu o amor numa pintura? Numa foto? O amor está num simples toque. No silêncio entre duas pessoas. Na compreensão das diferenças. Na admiração pelo outro. Na beleza que está dentro. O amor é o que me move, desde que me lembro. Já perdi a esperança nas pessoas e até no sentido da vida, algumas vezes ao longo dos anos. Mas o amor sempre estava lá, em algum lugar. O que me faz acreditar no amor, nunca foi exatamente uma pessoa, mas o próprio sentimento em si. Acho que simplesmente...

O Antigo e o Novo

Está deserto e silencioso. A areia é fofa, morna e instável sobre seus pés descalços. Mas o caminhar é firme. A saia despontada e longa, raspa em suas canelas enquanto caminha e reluz sob a luz do sol. Passa devagar pela fileira de seus irmãos de jornada em meditação, carregando uma cunca acobreada e irregular com cerimônia e respeito. Por fim alcança o mestre. Por alguma razão, os cristais dispostos em torno da testa grisalha lhe transmitem transparência e energia. A pergunta que traz a ele é bem simples. Inclina a cabeça em respeito, Antes de proferi-la: – O que devo fazer com isto? – Leve ao local que pertence aos antigos. A resposta também é simples e direta. Outra reverência respeitosa. O entendimento é literal e, portanto, as ações a princípio são mecânicas. Dá alguns passos a frente, escolhendo o melhor local para virar o recipiente, liberando no ar as cinzas e pó que ali se encontravam paradas sem atingir ninguém ao seu redor. Segue até uma pequena prateleira, onde ...

Revoada

... Posso observar a revoada das andorinhas-de-sobre-branco na sacada, As abelhinhas jataí nas plantas que cultivei, Ouvir o canto alegre das maritaquinhas nas árvores da praça... Nada é meu. Mas essa vida frágil que resiste a cidade cinza, Me cura. Esses momentos são tudo para mim. Nada possuo. Neles me agarro. Respiro. Me arrebatam.