Penso que nós só conhecemos realmente o trabalho de um artista depois de conhecer um pouco da vida dele. É ali que mora a faísca que o move, é nela que entendemos suas linguagens diversas. São nas vivências que possuímos, que nossa busca nasce e se desenvolve.
Aquilo que nos encanta, que nos entristece, que mexe de alguma forma com nosso sentir, com nosso imaginário, com nossos sonhos… Aquilo nos persegue e se revela na obra.
“Eu quero tocar as pessoas com a minha arte.” (Van Gogh)
Acredito que Vincent, nesta frase fala por todos os seres humanos envolvidos com algum tipo de arte. Não existe arte pela arte. A pretensão universal é sempre de alguma forma tocar o coração de mais alguém. A arte serve ao ser humano e ao seu sentir.
Pessoalmente me considero uma pessoa que sente demais. Sinto tanta coisa, que não consigo lidar com tantas emoções internas. O sentimento precisa sair de mim, para que eu receba os próximos que virão. E ele sai no choro, no riso, na escrita, na pintura… Por onde mais eu conseguir expressá-lo ou irá me consumir.
A meu ver esta é a verdadeira razão pela qual, invariavelmente, a arte acaba refletindo de alguma maneira a sua época, o seu momento. O artista nele vive, portanto sente seus efeitos, sejam eles encantadores ou perturbadores. O momento interfere diretamente na nossa vida, no nosso olhar, no nosso sentir, naquilo que somos e fazemos.
O projeto de artista que vos fala, não tem especificamente nenhuma pretensão de criticar ou evidenciar eventos históricos ou sociais da atualidade. Inclusive, costumo dizer que muito realismo me deixa especialmente entediada. Gosto do extraordinário, do belo, do mágico, do impossível. Das belezas naturais e das cores, dos mitos. Quero que aquele que olhe meu trabalho, se sinta num local mágico e especial, que se sinta tocado pela beleza, pela delicadeza, que seu espírito de alguma forma se eleve. É no zoom de uma flor ou numa criatura imaginária, nas camadas exageradas, que eu encontro meu sentir.
Porém isto não me isenta de ser afetada pela realidade, até porque é partindo dela que o fantástico surge. Pois bem, que momento, não? Caótico, de pouca ou nenhuma perspectiva de melhora, duas mil mortes no meu país e ainda tem gente passando fome, enquanto os poderosos provocam a negação da ciência. Tem sido mais brutal que uma guerra. Ainda que eu não pinte ou escreva sobre nada disto, certamente minha melancolia, saudade, desespero e algumas vezes uma teimosa esperança, tudo isto vaza do meu coração através dos meus dedos. A série “Vazios” foi a que mais claramente refletiu este difícil momento, mas não foram as únicas pinturas carregadas do que este instante me faz sentir.
Temos enfrentado diariamente esta batalha contra nós mesmos de maneira mais intensa. E se já é mais intenso para todos, que dirá para alguém naturalmente intensa e apaixonada pela vida.
Certa vez Van Goh disse que “A arte é consolar aqueles que são quebrados pela vida.”
Hoje posso dizer que ela me mantém sã. Muitas mais vezes tenho me forçado a pintar sem vontade, simplesmente porque sei que ela tem esse poder de extravasar meu sentir, minha verdade daquele instante. Terminada a obra o espírito se alivia, mesmo que o sentimento não se dê por totalmente resolvido, diminui a carga e me sinto capaz de voltar a sonhar ou ao menos, sentir-me viva.
Acho que, se minhas pinturas puderem fazer isto por mais alguém além de mim mesma, terei então cumprido meu principal papel como a artista que desejo ser.
Eu sinto muito.
Porque sinto demais e porque realmente sinto muito por tantas mortes.
À todos aqueles que perderam alguém, recebam o meu sentir.

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