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“As Vozes”


Não é só uma sombra ou um julgamento que me acompanha. Também há algumas que me movem, fazem planos e sonham. Organizam e desorganizam minha vida, mas todas de uma vez.

"As Vozes" não pedem licença. Não esperam a primeira terminar aquele assunto. Falam todas uma em cima da outra, desordenadamente. Por alguma razão, eu compreendo a todas. 

São assuntos, lembretes, cobranças, funcionalidades, aleatoriedades, criações... 

São múltiplas. Talvez, uma Legião.

Meu eu sabe que a vida não precisa ser útil e funcional apenas. Todos precisamos de pausas.

Mas e quando a pausa, faz levantar As Vozes da cabeça? 

Elas me dizem que eu preciso “merecer” esta pausa. "Afinal, por que você está sempre tão cansada? Cansada de quê ? Tanta gente tem horários bem mais apertados que o seu e funcionam. Por que você nunca dá conta?"

Numa coisa todas concordam: eu tenho que dar conta de todos os traços do meu eu.

É inviável, obviamente. O que me causa constante frustração.

O eu que desenha, quase não desenha mais. Assim como o que escreve.

Aquela que gosta de estudar, não consegue manter a rotina, tem dificuldade de focar ou se distrai facilmente com curiosidades pequenas do processo, ou está mentalmente tão cansada que cochila.

A mulher que ama costurar, quer apenas seguir costurando infinitamente, pois é quando a maioria das Vozes se cala para ver a mágica da transformação de um tecido em um objeto acontecer. Mas também preciso de complementação financeira, então "preciso vender, tirar foto, precificar, publicar, atualizar, gravar vídeo, embalar, postar..."

O lado professora segue bem. Paga as principais contas, embora já não seja o bastante como já foi no passado. Mas está cansado de ser cobrado de tantos títulos, tarefas bobas, ferramentas sem fim. Cansado do jogo de ego que permeia o mercado que cobra provas emolduradas da sua capacidade. 

Meus alunos não têm culpa de todas estas questões. Aproveito para desassociar com trabalho: Esqueço a frustração, o corpo cansado, ou alguma nova lesão que meu corpo cobrou com a idade e a repetição.

A tal saúde financeira não existe. Isso me atormenta e me impede de querer maternar. Um macaco tem família... Mas eu também não sou bicho? 

Quando foi que algo tão natural se tornou dependente do capitalismo ?

O som de uma buzina exagerada e da reforma do vizinho ao lado se juntam numa só voz e me irritam. Sons aleatórios também aumentam de volume. Em meio a tudo isto, reconheço o canto de uma ave. Aquilo me acalma e me arranca um sorriso, simplesmente porque sei seu nome, seu comportamento, sua beleza… A admiro e me agrada que esteja perto de mim, fico a imaginá-la ainda que não a veja.

Enquanto ainda escrevo estas linhas, me sinto triste por sentir doer o contato da ponta do dedo ao toque da caneta, quase que a formigar. O tendão do cotovelo e do ombro me alertam que tem algo errado e uma das vozes me corrige, “Você tem que se apoiar e corrigir a postura.”

Crio listas. De tarefas da casa, de coisas para comprar, de aulas a dar, de comidas a fazer, de separar um tempo para os hobbies, do que tenho que costurar, dos horários a cumprir. Quando as termino, as vozes se calam por instantes. Não vou mais esquecer.

Me envolvo em uma batalha para realizar 1, 2, 3 ou até 4 itens daquela lista num só dia. Termino sempre achando que deveria ter feito mais. Mas fico satisfeita porque fiz, porque funcionou e as vozes estão caladas.

Daí durmo, mas não descanso. Na manhã seguinte faço um café ou um chá que vão esfriar antes que eu me lembre de bebê-los. Perco a fome e a vontade de cozinhar. Sigo no automático. Naquela manhã minha voz física se cala. As vozes recitam os itens das listas não feitos. O cronograma me estressa. Não me sinto capaz de fazer nenhuma simples tarefa como lavar a tampa da minha garrafa de água. Mas se uma amiga estiver precisando que eu escale o Himalaia para salvar o mundo dela estou dentro, porque isso seria realmente relevante. 

Eu deveria ter arrumado aquela gaveta…

Um mosquito me pica. A irritação na pele se torna a única coisa em que minha mente consegue focar. Coço tanto que me machuco. Fica roxo ou até me arranho.

Quero desistir.

“Você não pode desistir!”

Quero de novo sonhar…

“É vã a tentativa de realizar o que você nunca termina.”

As dores no corpo me vencem. Prossigo o dia, pois sou obrigada a sair do meu mundo para ir trabalhar.

Daí me lembro que amo o que faço… Volto a sorrir, e, provavelmente, a desassociar.

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