Eu estava triste. Fazia pouco tempo que eu tinha me vacinado e concordado em voltar a trabalhar presencialmente. A vida começava a retomar seu curso, mas não ainda sem tantos medos e o peso de perdas já vividas. Eu vinha pouco à pouco matando um dos meus maiores sonhos, porque a esperança não conseguia voltar para dentro de mim. Trabalhar com crianças, naquele momento, era doloroso. Me jogava na cara o que eu não tinha.
Estava difícil sorrir naquele dia. Eu sempre me esforço para não misturar minhas questões pessoais com trabalho, prefiro fazer meus alunos rirem com bobagens para que a risada deles me cure um pouco também. Mas não consegui vestir a máscara daquela vez. Ou talvez eu tivesse só cansada de usá-la.
Um dos meus alunos tinha chegado mais cedo. Me cumprimentou com um sorriso contente de estar ali. Eu respondo sem muito entusiasmo, embora tenha me lembrado de sorrir amorosamente - ou ao menos achei que tinha. Deixei minha bolsa na cadeira e o pequeno vem até mim, estreitando os olhos:
_ Prô, você tá bem?
Digo que sim, apesar de saber que minto descaradamente. Mas pergunto porquê. Acho que algo em mim quer saber o que ele viu.
_ Do pouco que te conheço você tá sempre tão animada e empolgada com a gente. Hoje te achei meio séria.
Os olhos escuros dele atravessaram minha alma como uma adaga. Passo a mão na cabeça dele, querendo explodir de chorar ali mesmo. Da sensibilidade de uma criança de 10, 11 anos, me enxergar tão bem. Me sinto grata por um instante.
_ Vai ficar tudo bem.
Respondi não exatamente para o meu aluno. Tentei dizer aquilo pra mim mesma.
O dia foi passando e tudo que eu queria, era chegar em casa. No caminho, enquanto atravesso uma rua meio cabisbaixa, sou praticamente “barrada” por um beija-flor. O pequenino resolveu pairar exatamente na minha frente.
Foram apenas alguns segundos, mágicos.
No meio da cidade, aquele passarinho furta-cor maravilhoso, normalmente tão arisco… Estava ali voando na frente do meu rosto, como se esperasse apenas que eu olhasse para ele de volta antes de partir. Arrebatada pela cena, minhas emoções continuam a subir até minha garganta.
Já em casa, corro para olhar para as minhas plantas. Acho que xinguei as pragas que encontrei com mais raiva do que normal. Joguei remédio, tentei limpá-las, mas sabia que só o tempo ia dizer se ficariam bem.
Converso com minha melhor amiga por mensagem. Ela me entende e me dá suporte, puxa minha orelha por eu ter demorado tanto para me abrir sobre aquele assunto.
Quando meu marido chega em casa, não demora quase nada para que eu esteja chorando nos braços dele, sem nem saber como explicar direito o que eu estava sentindo. Lembro que me acolheu no enorme abraço dele, me acalmou com sua voz doce e sábia, deixando-me transbordar.
E este foi um dia incrível, porque…
Bem, se você não conseguiu perceber...
Leia de novo.

Comentários
Postar um comentário