Perdoar vem do latim “perdonare”, onde “per” é um sufixo que significa através, durante, inteiramente; e o “donare” que significa doar. É algo inteiramente doado, ou adquirido através da doação. Em tese, isso para mim quer dizer que perdoar é abrir mão de algo. Abrir mão de uma punição, abrir mão da raiva, abrir mão da sua vitimização, deixar de culpar o outro. Deixar ir, desprender-se.
Perdoar não é uma atitude fácil conforme a gravidade da situação. Eu mesma costumo dizer que, ainda que eu perdoe, não quer dizer que necessariamente esqueço. Parece antagônico, eu sei. Mas significa que abro mão da raiva e não da memória. Que o ocorrido me fez perder a confiança e que ficarei mais atenta àquela pessoa. Passa a existir um escudo, uma mureta entre nós. A raiva me consome, mas a memória me protege de ações futuras.
“Gato escaldado tem medo de água fria”.
Por mais difícil que seja perdoar um ato terrível do outro, creio que é muito mais duro perdoar a si mesmo. Quantas culpas a gente carrega ao longo da vida até perceber que elas são um peso desnecessário, que só nos desgastam mais, nos entristecem mais, nos reduzem exageradamente.
Sim, errar é humano. Repetir que é burrice. Portanto a memória do erro deveria bastar. Do contrário, esta tal desta culpa nos persegue feito carrapato, muitas vezes por coisas que nem sequer estão sob nosso controle.
Eu tive uma relação complicada com um dos meus avôs. Ele me seguia quando eu ia fazer trabalho na escola e quando eu voltava, me xingava “de tudo quanto era nome”, apenas por existir um garoto que fosse na equipe. Paranóico, eu sei. Machista também. Eu era muito novinha, acho que tinha onze anos e me magoava muito aquela situação. Até que um dia, meu pai descobriu o que acontecia e teve uma discussão pesada com ele. Parei de falar com avô daquele dia em diante. Queria que percebesse que o que ele fazia era inaceitável e, talvez, ao deixar de fazer parte da minha vida, ele pararia de agir como meu cão de guarda. Nesse sentido, funcionou. Infelizmente custou anos do que poderia ter sido uma relação legal com ele.
Mas hoje percebo que não tive outra escolha. Meu avô se deixou amargar pelo que a vida deu a ele. Infelizmente, não conseguiu superar todas as questões que tinha. Meu avô era um Lituano que veio ainda pequeno fugido da guerra e passou por outros perrengues mesmo aqui no Brasil, foi alcoólatra uma boa parte da vida e nunca falava da própria família… Enfim, haviam marcas pesadas na alma dele que o fizeram ser quem ele era. Isto, é claro, não dava a ele o direito de fazer o que fazia. Foi errado, sim. Mas ele era humano, também.
Seguindo com a minha história, eu sempre tive um “sentido-aranha”, que normalmente avisa de algumas coisas, inclusive quando alguém muito próximo vai partir. Esse sentido bateu naquele dia quando olhei para meu avô. Ele estava bem, na época. Mas eu soube ali, que o tempo dele era curto. Senti que eu devia tirar aquele peso de dentro de mim e cumprimentá-lo pelo menos, já que nem isso eu fazia. Murmurei um “bom dia” com muita dificuldade. Olhei pra ele por menos de um segundo e sai apressada. Uma tonelada parece ter saído de dentro do meu peito. Poucos dias depois ele teve um derrame, ficou hospitalizado e posteriormente veio a falecer.
Eu chorei pra caramba, desesperada e escandalosamente. Daqueles choros de engasgar, ter vontade de gritar, de soluçar e perder o ar. Tudo porque eu não tinha feito as pazes com ele, por aqueles anos de silêncio e ausência. Pelo desejo que eu tinha, de que tivesse sido diferente. Chorei pelo avô que eu não tive naqueles anos.
Demorou um tempo para que eu entendesse que aquela culpa que eu chorava era em vão. Primeiro porque não dava para voltar no tempo e fazer diferente. Segundo, porque mesmo que eu pudesse refazer meus passos, seria pior. O único caminho que ele me deu, foi o afastamento. Sei que se eu me aproximasse, ele voltaria a ser o cão-bravo que tentava dominar minha vida e meus passos. Eu sofreria mais.
Cortar aquele laço, cortou a guerra e a perseguição. Não sem dor… Mas foi o melhor que pude fazer. Mantive a memória do avô que até mais ou menos os meus dez anos, era o brincalhão que assistia Chaves, brincava de boliche e de pega-pega ou de qualquer outra coisa como se fosse mais criança do que a gente. Sei que ele nos amou. Mas também não esqueci do perigo que ele passou a representar para a Priscilla como mulher… E de porque eu abri mão daquela relação tóxica.
Isto demorou um pouco para ficar claro dentro de mim. Eu não tinha mais raiva do meu avô há anos. Mas de mim… De mim eu tinha muita raiva. Por não ser capaz de fazer sequer contato visual com ele. Demorei bem mais para me perdoar, que para perdoar meu avô.
Ah, essa tal dessa culpa! Tem gente que não sente nenhuma e tem gente que sente demais. Um dia quem sabe a gente chega no equilíbrio.
Para quem teve paciência de chegar até aqui, se é que posso dar um conselho… Tente descobrir se essa raiva não é mais sobre você, do que sobre o outro. Se não é necessário olhar para dentro e se perdoar primeiro. Jogar fora essa culpa que te machuca e te impede de recomeçar.
Posso te dizer, com certeza, que tudo fica mais leve sem ela.

Comentários
Postar um comentário