Pular para o conteúdo principal

Mágoa

Uma vez ouvi dos antigos que mágoa, é má-água. Água ruim. Precisa sair ou ser limpa.

Já parou para pensar como é difícil limpar água? Tem que decantar, depois encontrar um meio de filtragem para remover as impurezas menores… Leva muito tempo!

Assim é a mágoa. Se você deixar, ela fica ali, como um engulho, te sujando por dentro. Te faz tanto mal…

Quando alguém nos magoa, dói. Mas quando é alguém em quem você confia, ama mesmo… Dói bem mais. Para mim, é muito mais fácil abandonar mágoas de conhecidos, do que de família próxima e amigos queridos. Acho que é aí que mora o perigo da real da mágoa, aquela bem nociva, que leva anos nos prejudicando.

Me lembro de uma vez, no começo de uma amizade linda - que na época ainda era um brotinho… Marquei um encontro na minha casa com ela junto com outra amiga - que nem era tão próxima, embora conhecesse há mais tempo. Estava ansiosa para passar a tarde com elas.

Bem, acontece que esta nova amiga tão querida não chegava. Achei estranho, porque ela sempre era muito pontual. Não tive dúvidas e liguei. Ela me disse que tinha ficado trancada em casa sem as chaves. Na mesma hora eu saquei que a voz dela estava estranha. Lembro que fiquei tão triste, magoada mesmo…

Eu bem sei que é comum receber estes “nãos” socialmente aceitos e que eles são um jeitinho brasileiro de negar de maneira supostamente mais gentil. Mas ela era minha amiga próxima! Em pouco tempo, já era a melhor amiga. Aquilo, vindo de quem eu já dividia de tudo e tinha tanta afinidade, partiu meu coração.

Se me lembro bem, no mesmo dia, quando a segunda amiga tinha ido embora, resolvi perguntar o que realmente aconteceu. Explicar que aquilo que eu mais amava na nossa amizade, era a honestidade. E que aquela “mentirinha polida” me feriu muito. Descobri que ela apenas não gostava muito desta minha outra amizade e ficou sem jeito de me contar.

Choramos juntas. Eu reforcei que tinha sido uma bobagem enorme. Que eu queria que continuássemos sempre muito verdadeiras e sinceras uma com a outra, pois era isto que eu mais admirava na nossa relação. Fizemos algumas juras sobre sempre sermos muito francas, mesmo que a verdade fosse dura.

Pois é. Em vez de guardar aquilo para mim, decidi expor. Acho que às vezes deixamos de fazer isto e ficamos guardando, remoendo… Sequer expomos para o outro.

Claro que, se o outro nem vale a pena, podemos chorar o que tiver que chorar e deixar que aquilo se esvaia - afinal não vale a pena, certo? Basta jogar fora.

Mas é justamente quando a pessoa importa, que a gente tem essa mania feia de se calar. Deixa de dizer “Ei, isso que você fez me magoou”... E permite que aquele seja amor corrompido pela mágoa, pela raiva, pelo rancor… Será que isto está certo?

Esta amiga com quem eu dividi meus sentimentos há uns 26 anos atrás, é até hoje uma verdadeira irmã, com quem divido tudo. Do melhor ao pior momento, estamos sempre de alguma forma juntas, nos apoiando - mesmo que fisicamente a gente nem consiga se ver tanto. Falo com ela praticamente todos os dias. Só para rir, ou pra dizer que aquele dia está difícil. E não pensem que é só colo e carinho na cabeça, não! A gente dá tanta bronca uma na outra… Que às vezes saímos até meio “mancando” das invertidas.

Nós sabemos que do outro lado temos alguém que não vai apenas dizer “tadinha, não fique assim!”. Sabemos que, do outro lado, há alguém que vai buscar dizer o que realmente pode ajudar, seja belo ou feio. Ou simplesmente vai estar ali apoiando, acolhendo, acompanhando... Eu não pergunto se ela está bem por educação. E ela sabe que pode dizer “estou péssima hoje”, porque eu realmente quero saber como ela está e que, na voz dela, sempre vou ler que tem algo errado mesmo. Vou querer ouvir, pois me importo.

Mas veja, talvez se eu nunca tivesse tido aquela conversa com ela…

É… Talvez a nossa amizade nunca seria tudo o que ela é hoje. Talvez, a gente só diga tanta verdade nua e crua uma para outra, conte coisas tão íntimas e muitas vezes dolorosas… Por causa dessa nossa catarse de quando éramos ainda tão novinhas.

Que bom que eu fui honesta. Que bom que você me entendeu. Que linda jura de sinceridade a gente fez! Me salvou e me salva de tanta coisa… Todos os dias.

Te amo, Quel. Até a lua e volta.

Comentários

A Galera Gostou...

Vivo. Logo...

Acho que sempre acreditei nele. Sou o tipo de pessoa que se pode chamar de passional, romântica, sensível, intensa. Mesmo antes de entender esse sentimento, eu já o sentia em mim. Não tem como duvidar de algo que já está dentro de você… Ou será que tem? Na verdade, tem como sim. Já muitas vezes duvidei de mim. Do amor, nunca. O vejo nas plantas, nos animais, nas pessoas… Eu não estou falando só de amor romântico, porque esta palavra é tão ampla, tão abrangente… E tão intensa em mim. Quem nunca viu o amor numa pintura? Numa foto? O amor está num simples toque. No silêncio entre duas pessoas. Na compreensão das diferenças. Na admiração pelo outro. Na beleza que está dentro. O amor é o que me move, desde que me lembro. Já perdi a esperança nas pessoas e até no sentido da vida, algumas vezes ao longo dos anos. Mas o amor sempre estava lá, em algum lugar. O que me faz acreditar no amor, nunca foi exatamente uma pessoa, mas o próprio sentimento em si. Acho que simplesmente...

O Antigo e o Novo

Está deserto e silencioso. A areia é fofa, morna e instável sobre seus pés descalços. Mas o caminhar é firme. A saia despontada e longa, raspa em suas canelas enquanto caminha e reluz sob a luz do sol. Passa devagar pela fileira de seus irmãos de jornada em meditação, carregando uma cunca acobreada e irregular com cerimônia e respeito. Por fim alcança o mestre. Por alguma razão, os cristais dispostos em torno da testa grisalha lhe transmitem transparência e energia. A pergunta que traz a ele é bem simples. Inclina a cabeça em respeito, Antes de proferi-la: – O que devo fazer com isto? – Leve ao local que pertence aos antigos. A resposta também é simples e direta. Outra reverência respeitosa. O entendimento é literal e, portanto, as ações a princípio são mecânicas. Dá alguns passos a frente, escolhendo o melhor local para virar o recipiente, liberando no ar as cinzas e pó que ali se encontravam paradas sem atingir ninguém ao seu redor. Segue até uma pequena prateleira, onde ...

Revoada

... Posso observar a revoada das andorinhas-de-sobre-branco na sacada, As abelhinhas jataí nas plantas que cultivei, Ouvir o canto alegre das maritaquinhas nas árvores da praça... Nada é meu. Mas essa vida frágil que resiste a cidade cinza, Me cura. Esses momentos são tudo para mim. Nada possuo. Neles me agarro. Respiro. Me arrebatam.